Quimbanda

#quimbandadecadeia

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Até os dias atuais, nosso grupo é alvo de comentários maledicentes, maldosos e jocosos sobre nossa origem, como se aprender o culto aos mortos em ambientes extremos, hostis, densos, obscuros e por vezes monstruosos fosse um demérito. Como se apenas a chamada “quimbanda gourmet”, praticada em palácios perfumados com lavanda, talco e discursos plastificados em yorubá ou bantu mal compreendidos, tivesse legitimidade espiritual. Como se o sagrado só pudesse existir onde há conforto, estética agradável e ausência de risco. Nesse teatro de pureza performática, tentam nos colocar como escória, como erro, como desvio.

O grande engano desses julgadores é simples e cruel: nós fomos forjados em lugares onde eles jamais acenderiam sequer uma vela, tomados pelo medo real das consequências energéticas. Não falamos de metáforas. Falamos de locais onde o silêncio pesa, onde o ar muda, onde a presença é sentida antes de ser compreendida. Mergulhar nas trevas não é um defeito — é um ato de coragem extrema. Voltar delas com lucidez, força e capacidade de se reerguer é fruto de uma transformação ainda mais profunda. Não é discurso, é vivência.

Quem não errou? Quem nunca caiu? Porque até onde se sabe, muitos dos que hoje apontam o dedo prestam culto a Maria Navalha, Sete Facadas, Exu Carniça, Exu Matança, Lorde da Morte e tantos outros “santinhos” que, em vida, estiveram longe de qualquer ideal de moralidade, ordem ou bons costumes. E isso nunca é colocado na balança. Cantam para a morte dos inimigos, rezam para forças que dizem temer, evocam destruição em pontos e cantigas, mas não sabem o que é um confronto real — nem espiritual, nem existencial. Falam muito, vivem pouco. Criam narrativas sobre caminhos que jamais trilharam. 


Superar dores e traumas não faz ninguém quimbandeiro ou quimbandeira. Igrejas estão cheias de pessoas que se libertaram, se reconstruíram e seguiram suas vidas. Isso não é diferencial. O que separa poucos de muitos é outra coisa: são raríssimos aqueles que sentiram na pele o sopro da morte verdadeira, que caminharam na beira da insanidade sem romantizá-la, que encararam o abismo não por curiosidade estética, mas por necessidade existencial. Poucos são os que estiveram dispostos a pular no escuro em busca do mais básico e mais aterrador dos questionamentos: “quem sou eu?”.

Enquanto se ocupam em nos julgar, enterramos nossas mentes em estudos profundos, práticas pouco convencionais, devoções silenciosas, rotinas inenarráveis e processos que não cabem em vídeos editados ou discursos motivacionais. Somos diferentes, sim. E talvez nem devêssemos mais usar o nome Quimbanda, para falar a verdade, porque o termo já não vibra com o caminho que escolhemos trilhar. Houve um tempo em que ele nos ofereceu ressonância e verdade; hoje, tornou-se rótulo inflado, mercado espiritual, vitrine de milagreiros, grandes produções audiovisuais e equipes de mídia transformando o sagrado em espetáculo. Um circo bem iluminado, mas vazio de sangue, silêncio e risco real.

Este texto nasce após dedicações profundas a Jesus Malverde, santo marginal, protetor dos esquecidos, dos forjados à margem, dos que aprendem a sobreviver onde o Estado, a moral e a religião oficial falharam. Malverde não habita altares limpos; ele caminha entre becos, fronteiras e zonas proibidas. E é desse mesmo território que falamos. Não buscamos aprovação. Não pedimos validação. Caminhamos onde poucos têm coragem de pisar — e seguimos em frente, com cicatrizes, consciência e fogo próprio.

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